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Lista de Cornetadas do Cunio
 
08 de Março de 2010
Corneta do Cunio - Santo, pela mão dos homens

POR ALBERTO CUNIO  

Beatificados alviverdes, os bons preceitos recomendam que não devemos discutir três assuntos magnos: religião, política e futebol. O primeiro, está claríssimo. Mexe com a fé e esta é intocável. O segundo, para mim, é por ser perda de tempo. O terceiro, beira a galhofa. Para os palmeirenses, porém, o primeiro e o terceiro se fundem quando o assunto é “São” Marcos.

Uma vez, quando bem mais jovem, questionei aos quatro ventos como “Padre Cícero”, ou “Padim Ciço” para os fiéis (não “aqueles”), poderia ser levado pelo povo à categoria de santo, se ele fora excomungado pela igreja católica romana (há controvérsias sobre este fato), seu milagre considerado um embuste e sua história remetesse ao que há de mais provinciano e coronelista na política nordestina. Pois é.

Falar aqui que a voz do povo é a voz de Deus soará ridículo. Então vou abordar o assunto por outro lado.

A história fez de nosso clube detentor de inúmeros ídolos, graças também aos inúmeros títulos. Graças, pelo menos história ainda temos. E hoje vivemos um caso inédito, o de conviver com um ídolo, que escreveu parte desta gloriosa história, mas ainda pode ser visto em ação, ouvir os gritos da torcida, sofrer os amargores das derrotas e a adrenalina das vitórias. Nada disso seria estranho se não estivéssemos vivendo uma seca de conquistas há mais de uma década (exceto pelo Paulistão 2008) e o momento em nada compactuar com glórias e ídolos.

Marcos é o protagonista desta situação inusitada. E está pagando caríssimo por isso. 

Se por um lado nosso ídolo é “blindado” pela fé alviverde, que em 1999 o canonizou após a conquista da Libertadores, ainda cai sobre seus ombros uma enorme responsabilidade por continuar  a “salvar a pátria” nos momentos mais agudos e críticos que vivemos.

Nosso humano levado à condição de santo, no entanto, ainda é muito humano. E como tal erra, acerta, agrega, desagrega, fala bobagens, conserta em seguida. Haja santidade, haja paciência, haja amor pelo Palmeiras.

Este misto de herói, que por um lado tira o corpo fora e lava as mãos na hora do aperto, deixando o circo pegar fogo, e do outro tem a aura do intocável, que está acima do bem e do mal, acaba por deixar confuso até seus próprios leais seguidores. Marcos precisa, ele mesmo, definir estes limites. E para isso deve deixar claro qual é seu papel dentro do clube. Se vai continuar como atleta, se vai para a comissão técnica, se vai ser dirigente, se vai para a arquibancada, ou se quer apenas ser lembrado como “santo”. Como e quando.

A polêmica na qual se envolveu na semana passada, até com bate-boca em emissoras de televisão, mostra uma exposição excessiva, uma fragilidade de comando e direção do clube, um direcionamento de foco onde não interessa. Marcos é grande. Devemos inúmeras alegrias a ele. Jamais esqueceremos. Mas o Palmeiras é enorme. Existe A.M. e existirá D.M.. Esperamos que seja eterno, pelo menos enquanto viva o último palmeirense.

Enquanto nós aguardamos nossa própria canonização, pois o primeiro milagre já nos tornou beatos (amar tanto um clube que nos despreza), não precisamos que nosso “santo” tome o lugar dos anjos e toque para si as trombetas. Ou até mesmo a minha corneta.


» Escrito por BLOG 3VV | Comentários (10)
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